Quando estudei pela primeira vez a passagem do rico e Lázaro, uma coisa me chamou bastante a atenção. O texto diz que, depois de morrer, o rico estava no Hades, em tormentos. Naquele momento, minha compreensão foi bem simples: se ele estava sofrendo depois da morte, então Hades deveria ser o próprio inferno. Afinal, era assim que eu entendia a palavra.
Só que, quando voltei para o texto com mais atenção e comecei a comparar aquela passagem com outros textos bíblicos, percebi que a questão era mais cuidadosa do que eu imaginava. O rico realmente estava em um lugar de tormento e sofrimento, sem encontrar alívio para sua situação, mas o texto não estava simplesmente dizendo que Hades era o destino final dos condenados.
Foi aí que comecei a perceber uma diferença que passa despercebida quando lemos rapidamente. A Bíblia utiliza palavras diferentes para falar da morte, do lugar dos mortos, do juízo e do destino definitivo dos ímpios. Hades aparece em uma dessas situações, enquanto Geena e o lago de fogo aparecem em outras. Não se trata de colocar nomes diferentes no mesmo lugar, mas de entender o que cada expressão significa dentro das passagens em que aparece.
Isso muda bastante a maneira como lemos a história contada por Jesus em Lucas 16. O rico estava no Hades e experimentava sofrimento, enquanto Lázaro estava junto de Abraão. O próprio relato mostra que havia uma separação entre eles e que o rico não encontrava alívio para sua condição: “E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam” (Lucas 16:26).
A partir daí, surge uma questão importante: se Hades não é simplesmente o inferno definitivo, então o que significa Hades? E onde entram Sheol, Geena e o lago de fogo? Para responder, precisamos olhar para cada termo separadamente e perceber como eles aparecem na Bíblia.
O que é Sheol na Bíblia?
Sheol é uma palavra hebraica encontrada no Antigo Testamento e relacionada ao lugar ou condição dos mortos. O termo aparece em diferentes passagens e não significa automaticamente um lugar de punição eterna. Esse detalhe é importante porque algumas traduções antigas utilizaram “inferno” para traduzir Sheol, enquanto outras preferem “sepultura” ou mantêm o termo hebraico.
A história de Jacó ajuda a perceber isso. Depois de acreditar que José havia morrido, Jacó ficou profundamente entristecido e disse que desceria ao Sheol lamentando a perda do filho (Gênesis 37:35). A palavra está relacionada à morte e à sepultura, e não existe ali uma declaração de que Jacó estivesse falando sobre condenação eterna.
Jó também utilizou uma linguagem semelhante durante seu sofrimento. Desejando encontrar descanso diante de sua aflição, ele disse: “Ah! Se me ocultasses na sepultura, e me escondesses até que a tua ira se desviasse” (Jó 14:13). O pensamento está relacionado à morte, mostrando como o Sheol aparece dentro da linguagem hebraica.
Isso nos ajuda a evitar uma conclusão precipitada. Sheol não deve ser traduzido mentalmente sempre como inferno. O significado precisa ser observado dentro da passagem, porque o termo possui uma abrangência relacionada à morte e ao lugar dos mortos.
O Salmo 6:5 também utiliza essa linguagem: “Pois na morte não há lembrança de ti; no sepulcro, quem te dará louvor?” O salmista está tratando da realidade da morte e da condição daquele que parte desta vida. Portanto, quando encontramos Sheol no Antigo Testamento, precisamos considerar o sentido que a passagem está transmitindo.
O que é Hades no Novo Testamento?
O que é Hades? Eu também já fiz essa pergunta. Confesso que, quando comecei a estudar esse assunto, fiquei curioso para entender por que essa palavra aparecia em algumas passagens e o que realmente significava. Afinal, se o rico da parábola contada por Jesus estava no Hades e ali sofria, seria esse o mesmo inferno que costumamos ouvir nas pregações? Essa dúvida também pode aparecer entre muitos cristãos, principalmente entre os novos convertidos, que estão conhecendo a Bíblia e encontram palavras que nem sempre são explicadas com detalhes.
Foi pensando nessas dúvidas que decidi estudar o assunto com mais atenção e trazer esta explicação. Talvez você também já tenha se perguntado o que existe por trás da palavra Hades, se ela significa inferno, sepultura ou simplesmente o lugar dos mortos. Para entender isso, precisamos olhar para a palavra usada no texto original e observar como ela aparece nas diferentes passagens.
Hades é uma palavra de origem grega utilizada no Novo Testamento em passagens relacionadas aos mortos. Existe uma relação muito próxima entre Hades e Sheol, porque o primeiro pertence ao vocabulário grego e o segundo ao hebraico. Em vários textos, Hades cumpre uma função semelhante àquela exercida por Sheol no Antigo Testamento.
Isso aparece de maneira importante na pregação de Pedro depois da ressurreição de Jesus. Ao citar o Salmo 16, ele declara que Deus não deixaria Cristo no Hades: “Pois não deixarás a minha alma no Hades, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção” (Atos 2:27). Nesse caso, Hades está relacionado à morte e à sepultura, não a um lugar de condenação de Jesus.
Jesus também utilizou o termo ao falar de Cafarnaum. Depois de mencionar a incredulidade daquela cidade diante dos sinais realizados por Ele, declarou: “E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos” (Mateus 11:23). O termo grego utilizado nessa passagem é Hades.
A passagem do rico e Lázaro é especialmente importante porque mostra o Hades associado ao sofrimento. O rico morreu e foi sepultado; depois, “no Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos” (Lucas 16:23). Ele pede que Lázaro molhe a ponta do dedo e refresque sua língua, mas recebe a informação de que existe um grande abismo separando os dois. Essa passagem mostra que o Hades pode estar associado a uma condição de tormento depois da morte, mas ainda precisamos evitar uma conclusão automática. O texto não chama aquele lugar de Geena nem de lago de fogo. Por isso, Hades e inferno não devem ser tratados como se fossem simplesmente dois nomes para exatamente a mesma realidade.
Hades e inferno são a mesma coisa?
Aqui está o ponto que considero mais importante para compreender todo o assunto: Hades e inferno não são a mesma coisa no sentido de serem termos perfeitamente equivalentes. A confusão acontece principalmente porque algumas traduções portuguesas usam a palavra “inferno” para traduzir Hades.
Quando o leitor encontra “inferno” na Bíblia, pode imaginar que o texto original sempre utilizou a mesma palavra. Só que isso não acontece. Existem diferentes termos gregos relacionados ao assunto, e Hades é um deles. Geena é outro termo. Jesus utilizou essa palavra em advertências sobre o juízo e o castigo. Um exemplo aparece quando Ele disse: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” (Mateus 10:28). O termo traduzido como “inferno” nesse versículo é Geena.
A diferença fica ainda mais evidente quando observamos Apocalipse. João descreve a morte e o Hades entregando os mortos que estavam neles. Depois registra: “E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte” (Apocalipse 20:14).
Perceba o detalhe: Hades é lançado no lago de fogo. Isso mostra que o texto distingue Hades do destino representado pelo lago de fogo. Portanto, dizer simplesmente que “Hades é o inferno eterno” não corresponde à maneira como essa passagem apresenta os acontecimentos.
A palavra “inferno” usada nas traduções pode esconder essa diferença. Em um versículo, ela pode representar Hades; em outro, Geena; e ainda existem passagens nas quais aparecem outros termos. Por isso, o leitor precisa observar o texto original e o sentido da passagem antes de concluir que todos estão falando da mesma realidade.
O que é Geena na Bíblia?
Geena é um termo grego que aparece no Novo Testamento e está relacionado ao vale de Hinom, próximo de Jerusalém. Esse local ficou marcado por práticas idólatras extremamente graves no período do Antigo Testamento, incluindo sacrifícios de crianças associados à adoração de falsos deuses (2 Reis 23:10; Jeremias 7:31).
No ensino de Jesus, Geena passou a aparecer como uma expressão ligada ao juízo de Deus. Por isso, quando Cristo advertia sobre as consequências do pecado e da rejeição de Deus, utilizava uma linguagem que apontava para o castigo.
É justamente aqui que a distinção entre Hades e inferno fica mais importante. Geena possui uma relação específica com o juízo, enquanto Hades aparece relacionado aos mortos. Os dois termos não devem ser simplesmente trocados um pelo outro.
Outro texto que ajuda a perceber a existência de diferentes palavras está em 2 Pedro 2:4. Pedro fala dos anjos que pecaram e afirma que Deus os entregou a um lugar de confinamento, reservados para o juízo. O termo utilizado ali é diferente de Hades e Geena, embora algumas traduções também empreguem “inferno”.
Isso mostra por que uma simples leitura da palavra portuguesa pode esconder detalhes importantes. Quando várias palavras diferentes são traduzidas por “inferno”, o leitor pode imaginar que o original está repetindo o mesmo termo. Não está.
Por isso, ao estudar o assunto, é melhor separar as palavras. Sheol pertence ao vocabulário hebraico; Hades pertence ao grego e está relacionado aos mortos; Geena aparece ligada ao juízo; e o lago de fogo aparece em Apocalipse relacionado ao destino final do julgamento.
O lago de fogo é o mesmo que Hades?
Não. O livro de Apocalipse apresenta uma distinção bastante significativa entre essas realidades. João descreve o julgamento diante do grande trono branco e mostra os mortos sendo julgados segundo suas obras.
Depois dessa cena, ele afirma que “a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte” (Apocalipse 20:14). O texto utiliza Hades para falar do “inferno” mencionado nessa passagem.
Isso significa que o Hades não é apresentado como o destino final, pois ele próprio é lançado no lago de fogo. A sequência seguinte também afirma que aqueles que não foram encontrados no livro da vida foram lançados no lago de fogo (Apocalipse 20:15).
Essa passagem ajuda a organizar todo o assunto. O Hades aparece relacionado aos mortos, enquanto o lago de fogo aparece no momento do julgamento definitivo. Geena, por sua vez, está ligada às advertências de Jesus sobre o juízo e o castigo.
Não precisamos imaginar que todos esses termos estejam descrevendo exatamente o mesmo lugar com nomes diferentes. A própria maneira como os textos apresentam essas palavras mostra distinções importantes.
Como entender tudo isso sem confundir a mensagem da Bíblia?
Depois de separar os termos, a compreensão fica muito mais organizada. Sheol e Hades possuem uma relação próxima, porque pertencem respectivamente ao hebraico e ao grego e estão associados à realidade dos mortos. Geena possui outra utilização, relacionada ao juízo. O lago de fogo aparece em Apocalipse dentro da descrição do julgamento final.
Isso também explica por que a história do rico e Lázaro é tão importante para esse estudo. O rico estava no Hades, sofrendo e aguardando uma condição da qual não poderia sair. O texto apresenta um estado de tormento depois da morte, mas não utiliza essa passagem para dizer que Hades é simplesmente o lago de fogo mencionado posteriormente em Apocalipse.
Ao mesmo tempo, não devemos diminuir a seriedade daquele relato. O rico estava em sofrimento, separado de Lázaro por um grande abismo e consciente de sua condição. Jesus utilizou essa narrativa para transmitir uma advertência séria sobre a responsabilidade diante de Deus e sobre as consequências das escolhas feitas nesta vida.
A esperança para quem pertence a Cristo também aparece dentro desse ensino sobre morte e ressurreição. Jesus declarou: “Vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz” (João 5:28). A Bíblia aponta para uma ressurreição futura e para o julgamento de Deus.
Paulo também ensinou que a esperança do cristão está firmada na ressurreição de Jesus. Aos cristãos de Tessalônica, escreveu: “Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele” (1 Tessalonicenses 4:14). Por isso, se alguém perguntar “Hades, Sheol e inferno são o mesmo lugar?”, a resposta mais cuidadosa é: não. Sheol é um termo hebraico relacionado aos mortos; Hades é o termo grego usado no Novo Testamento para essa realidade em diversas passagens; Geena possui relação com o juízo e o castigo; e o lago de fogo aparece como destino final do julgamento em Apocalipse.
Entender essa diferença evita interpretações apressadas e também ajuda a perceber por que algumas traduções podem causar confusão. Hades e inferno não são simplesmente a mesma coisa. O sentido depende do termo original e da passagem em que ele aparece. Contudo, esse estudo me fez perceber que precisamos ter cuidado para não colocar dentro de uma única palavra tudo aquilo que a Bíblia apresenta em momentos diferentes. A morte, o estado dos mortos, a ressurreição e o julgamento aparecem dentro de uma sequência que merece ser lida com atenção.
E para quem está em Cristo, existe uma esperança que permanece acima de todas essas dúvidas: Jesus venceu a morte. Ele ressuscitou, prometeu vida eterna e voltará. Por isso, conhecer o significado dessas palavras não deve produzir somente conhecimento bíblico, mas também nos levar a valorizar ainda mais a salvação que recebemos por meio de Cristo.