Durante minha caminhada espiritual, uma coisa que fui percebendo é que amadurecer com Deus envolve aprender a ouvir tanto aquilo que nos consola quanto aquilo que nos corrige. É muito bom ouvir uma pregação sobre as promessas do Senhor, sobre bênçãos, provisão, cura e vitória. O coração recebe aquilo com alegria. O problema aparece quando Deus usa a sua Palavra para tocar justamente naquela área que precisamos mudar. Queremos que Deus ouça nossas orações, mas nem sempre queremos ouvir o que Ele está dizendo para nós.
Isso me fez pensar em uma situação que parece cada vez mais necessária dentro da Igreja: será que estamos dispostos a receber a correção de Deus? Há cristãos que gostam de ouvir sobre aquilo que Deus pode fazer por eles, mas ficam incomodados quando a mensagem fala sobre pecado, santidade, arrependimento, obediência, compromisso e mudança de comportamento. Quando a Palavra confronta, alguns já entendem a pregação como pesada demais. Quando ela consola, todos recebem bem. Só que o Deus que consola também corrige, porque ele está interessado no crescimento dos seus filhos.
A Bíblia não trata a correção de Deus como sinal de rejeição. Pelo contrário. O autor de Hebreus apresenta uma explicação que deveria mudar nossa maneira de enxergar esse assunto: “Porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hebreus 12:6). Essa passagem mostra que essa disciplina produz fruto de justiça naqueles que são exercitados por ela (Hebreus 12:6-11). Deus corrige porque somos filhos, não porque deixou de nos amar.
E existe algo que precisamos lembrar: a Igreja tem dono. Jesus disse: “edificarei a minha igreja” (Mateus 16:18). Se Cristo é o Senhor da Igreja, ele tem todo o direito de falar com ela, confrontá-la e chamar seus membros ao arrependimento. A Igreja não existe para oferecer somente aquilo que as pessoas gostam de ouvir. Ela pertence a Cristo, e a Palavra dele precisa continuar tendo liberdade para corrigir, ensinar e transformar.
Por isso, um crente que nunca aceita ser corrigido precisa parar e examinar o próprio coração. Crente mimado não cresce espiritualmente. Quem amadurece aprende que uma palavra de correção pode doer, mas ainda assim pode ser uma bênção quando vem para nos colocar novamente no caminho certo. Até uma repreensão pode ser motivo de gratidão quando entendemos que Deus continua falando conosco. Talvez seja justamente aí que esteja uma das dificuldades da Igreja hoje. Se a pessoa quer somente mensagens que alimentem seus desejos, que prometam vitória, prosperidade e bênçãos, mas rejeita toda palavra que chama ao arrependimento e à santidade, existe um problema de maturidade que precisa ser tratado. A correção não deveria nos fazer abandonar a igreja; deveria nos levar ao altar com um coração disposto a dizer: “Senhor, mostra-me onde preciso mudar”.
Foi pensando nisso que aquela pergunta começou a fazer ainda mais sentido para mim: será que a imaturidade espiritual está impedindo a Igreja de amadurecer? A resposta é sim, em muitos casos. Uma igreja formada por pessoas que não aceitam correção, resistem ao confronto da Palavra e querem somente ouvir aquilo que agrada seus ouvidos encontra dificuldades para crescer de maneira saudável. E isso precisa ser dito com equilíbrio. Nem toda dificuldade de uma congregação nasce da imaturidade, e nem toda pregação dura significa que Deus está corrigindo alguém. Precisamos discernir a Palavra e seus frutos. Ainda assim, quando o cristão rejeita sistematicamente qualquer ensino que confronte seu pecado, seu orgulho ou sua falta de compromisso com Deus, existe um sinal de alerta. Quem quer crescer precisa aprender a ser corrigido.
O que realmente significa ter maturidade espiritual?
Antes de mais nada, quero deixar claro que a imaturidade espiritual não é apenas a falta de conhecimento da palavra de Deus. Por outro lado, a maturidade espiritual também não pode ser medida pelo tempo de conversão. Uma pessoa pode estar muitos anos na igreja e ainda precisar crescer bastante em caráter, domínio próprio, discernimento e amor ao próximo. Da mesma forma, alguém que começou recentemente a seguir Jesus pode demonstrar uma disposição sincera para aprender, obedecer e corrigir aquilo que precisa ser corrigido.
A maturidade aparece principalmente na maneira como o cristão reage quando é contrariado, corrigido ou colocado diante de uma situação difícil. Crescer espiritualmente muda a forma de reagir. A pessoa começa a pensar antes de falar, aprende a ouvir, reconhece seus erros e deixa de transformar toda discordância em motivo para ruptura.
Isso aparece com bastante força na orientação de Paulo aos cristãos de Éfeso. Ele mostra que o propósito do crescimento espiritual envolve chegar à maturidade e deixar de ser levado por qualquer influência: “para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina” (Efésios 4:14).
A imagem usada pelo apóstolo é muito significativa. Uma criança pode mudar de opinião rapidamente, ser facilmente influenciada e ter dificuldade para avaliar determinadas situações. O cristão maduro desenvolve discernimento. Ele aprende a examinar aquilo que ouve e não permite que qualquer novidade determine sua fé.
Por que uma igreja cheia de pessoas imaturas encontra dificuldades?
Uma congregação é formada por pessoas, e aquilo que existe no coração dos seus membros acaba influenciando o ambiente da igreja. Se muitos chegam aos cultos pensando somente no que podem receber, qualquer frustração pode gerar reclamação. Se existe pouca disposição para servir, poucos acabam carregando responsabilidades que deveriam ser compartilhadas. Se falta domínio próprio, pequenos conflitos podem se transformar em grandes problemas.
Imaturidade espiritual também aparece na maneira de tratar pessoas. O cristão pode conhecer a doutrina correta e, ainda assim, alimentar orgulho, ressentimento, competição e dificuldade para perdoar. Esse tipo de comportamento prejudica relacionamentos e enfraquece a comunhão.
Tiago trata desse problema com muita sinceridade ao mostrar que conflitos externos podem nascer de desejos desordenados dentro das próprias pessoas. A orientação dele continua sendo bastante atual: “De onde vêm as guerras e pelejas entre vós? Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam?” (Tiago 4:1).
Isso nos ajuda a olhar para os problemas da igreja com mais responsabilidade. Nem sempre a primeira reação deve ser procurar um culpado. Às vezes, precisamos perguntar diante de Deus: o que existe em mim que ainda precisa amadurecer?
O conhecimento bíblico precisa produzir transformação
Conhecer a Bíblia é indispensável, mas o conhecimento precisa alcançar o caráter. Uma pessoa pode memorizar muitos textos, conhecer nomes de personagens bíblicos e acompanhar estudos durante anos sem permitir que aquilo que aprende confronte suas próprias atitudes.
O autor de Hebreus faz uma observação importante sobre esse processo. Depois de determinado tempo de caminhada, alguns ainda precisavam receber ensinamentos básicos, quando já deveriam estar preparados para compreender assuntos mais maduros. O problema não era falta de informação, mas falta de desenvolvimento espiritual.
Essa distinção é importante porque maturidade não significa saber tudo. Significa aprender a viver de acordo com aquilo que já se conhece. O cristão maduro continua aprendendo, reconhece que precisa crescer e não sente vergonha de admitir que ainda existem áreas em que precisa da ajuda de Deus.
A mudança também alcança o modo como lidamos com as pessoas. Paulo coloca amor, paciência, humildade e mansidão dentro da caminhada cristã: “com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor” (Efésios 4:2).
Isso exige crescimento interior. É fácil falar sobre amor quando todos concordam conosco. A maturidade aparece quando precisamos conviver com alguém que pensa diferente, quando recebemos uma correção justa ou quando alguém falha conosco.
A imaturidade também pode transformar a igreja em lugar de disputa
Existe outro problema que merece atenção: quando pessoas imaturas passam a enxergar a igreja como espaço para reconhecimento pessoal. A necessidade de aparecer, receber elogios, ocupar determinada posição ou provar que possui mais conhecimento pode alimentar disputas que nada têm a ver com o propósito de Cristo.
Jesus ensinou aos discípulos uma lógica diferente. Quando surgiu entre eles a discussão sobre quem seria o maior, Cristo mostrou que a grandeza no Reino de Deus está ligada ao serviço. Ele não alimentou a competição; levou aqueles homens a compreenderem que quem serve não precisa disputar posição.
Esse ensino continua necessário. Ministério não deve ser utilizado para construir importância pessoal. Cargos, talentos e oportunidades de servir precisam apontar para Cristo. Quando o ego assume o controle, até uma atividade legítima pode se tornar motivo de divisão.
A igreja amadurece quando seus membros deixam de perguntar somente “o que eu vou ganhar com isso?” e começam a pensar também “como posso servir?”. Essa mudança parece simples, mas transforma relacionamentos, ministérios e a maneira como os irmãos enfrentam dificuldades juntos.
Como saber se uma pessoa está amadurecendo espiritualmente?
Alguns sinais aparecem com o tempo. Um deles é a capacidade de receber correção sem interpretar toda orientação como ataque pessoal. Outro é aprender a pedir perdão sem criar justificativas para cada erro. Também existe maturidade quando o cristão consegue discordar de alguém sem transformar a divergência em inimizade.
Quem amadurece aprende a controlar a própria língua. Tiago dedica atenção especial a isso porque palavras podem destruir relacionamentos, espalhar conflitos e ferir pessoas. A maturidade, portanto, também envolve saber quando falar, como falar e quando permanecer em silêncio.
Outro sinal está relacionado às provações. O cristão maduro não conclui imediatamente que Deus o abandonou porque surgiu uma dificuldade. Ele pode sofrer, chorar, buscar ajuda e até fazer perguntas sinceras, mas continua confiando no Senhor.
Isso não significa ausência de emoções. Maturidade não transforma ninguém em alguém frio ou incapaz de sentir dor. Ela ensina a levar a dor para Deus sem abandonar a fé. O salmista demonstra essa sinceridade diversas vezes ao apresentar suas angústias ao Senhor e, ainda assim, continuar buscando nele seu socorro.
O que a Igreja precisa fazer para crescer?
A igreja amadurece quando cria espaço para ensino bíblico sério, discipulado, serviço, correção amorosa e convivência saudável. Pregação e estudo são fundamentais, mas precisam caminhar junto com acompanhamento. Pessoas precisam aprender a aplicar a Palavra às decisões, aos relacionamentos, ao casamento, à família, ao trabalho e às responsabilidades dentro da própria congregação.
Também existe uma responsabilidade individual. Não podemos colocar todo o peso do crescimento espiritual sobre pastores, líderes ou professores. Cada cristão precisa buscar o Senhor, estudar a Palavra, desenvolver oração, abandonar pecados conhecidos e permitir que Deus trate áreas que ainda permanecem desorganizadas.
Paulo descreve esse crescimento usando uma imagem muito bonita: “antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4:15). O crescimento acontece ligado a Cristo e também alcança a maneira como tratamos os irmãos.
Uma igreja madura não é formada por pessoas perfeitas. Ela é formada por pessoas que reconhecem suas limitações, aceitam ser ensinadas e estão dispostas a permitir que Deus transforme seu caráter.
O amadurecimento começa quando deixamos de culpar os outros
Talvez essa seja uma das partes mais difíceis. É muito fácil identificar a imaturidade no irmão, no líder, no pastor ou naquela pessoa que sempre causa problemas. O desafio é perceber onde ela também pode estar presente em nós.
Se quero ver uma igreja mais madura, preciso começar perguntando se minhas atitudes contribuem para isso. Se quero menos conflitos, preciso avaliar minhas palavras. Se desejo mais união, preciso examinar minha disposição para perdoar. Se espero que outros sirvam, preciso verificar se eu também estou disposto a colocar meus dons à disposição do Reino.
Deus trabalha primeiro no coração de quem se coloca diante dele. Essa postura muda completamente a maneira de enxergar a igreja. Em vez de alimentar reclamações, começamos a assumir responsabilidades.
Pedro orienta os cristãos a desenvolverem qualidades que demonstram crescimento espiritual, incluindo virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor. Ele afirma que essas características não devem permanecer estagnadas, mas precisam crescer (2 Pedro 1:5-8).
Existe uma sequência muito bonita nessa orientação. O conhecimento precisa produzir domínio próprio; o domínio próprio precisa caminhar com perseverança; a perseverança precisa alcançar a maneira como tratamos os irmãos. Assim, o crescimento espiritual sai do discurso e chega ao caráter.
Uma Igreja madura continua crescendo
A pergunta inicial merece ser levada a sério: será que a imaturidade espiritual está impedindo a Igreja de amadurecer? Em muitos casos, sim. Quando pessoas permanecem presas ao orgulho, à disputa, à falta de perdão, à dependência excessiva de líderes ou à necessidade constante de reconhecimento, o crescimento coletivo fica comprometido.
Ainda assim, existe esperança. Maturidade espiritual pode ser desenvolvida. Deus continua ensinando, corrigindo e formando seus filhos. Ninguém precisa permanecer para sempre no mesmo estágio.
Talvez o passo mais importante seja abandonar a ideia de que amadurecer significa simplesmente acumular conhecimento bíblico. Conhecimento tem seu lugar, mas Deus deseja produzir caráter. Ele quer formar pessoas capazes de servir, perdoar, discernir, suportar dificuldades, aconselhar com sabedoria e tratar os irmãos com amor.
Quando cada membro assume sua responsabilidade diante de Deus, a igreja começa a experimentar mudanças reais. O ambiente muda porque as pessoas mudam. Os relacionamentos ficam mais saudáveis porque o orgulho perde espaço. Os conflitos passam a ser tratados com mais sabedoria. O serviço deixa de depender de competição e passa a nascer de disposição sincera. Talvez o amadurecimento que estamos esperando na Igreja precise começar em nós. Antes de pedir que todos mudem, podemos nos colocar diante do Senhor e perguntar com sinceridade quais áreas do nosso caráter ainda precisam crescer.
Fale com o Senhor e peça ajuda, dizendo: “Pai, mostra-me onde ainda sou imaturo e ensina-me a crescer”. Se você fizer esse pedido a Deus em sua oração, sem dúvida já deu um passo importante. Afinal, Deus não abandona quem deseja crescer. Ele corrige, ensina, fortalece e conduz seus filhos para uma fé cada vez mais firme em Cristo.